Não é acaso, é projeto: a precarização que mata trabalhadoras

Não é acaso, é projeto: a precarização que mata trabalhadoras

Em Porto Alegre uma trabalhadora negra, contratada por uma empresa terceirizada de limpeza morreu num dia em que foi exposta a produtos altamente tóxicos. Não se trata de um fato isolado, mas de mais um episódio brutal que escancara como a precarização do trabalho, atravessada por raça, gênero e classe, segue colocando em risco e ceifando a vida de quem sustenta os serviços essenciais.

Não se trata de fatalidade. Não se trata de “causa natural”. Trata-se de um sistema que adoece e mata e que tem lado, cor e gênero.

Enquanto trabalhadores – de uma empresa de dedetização terceirizada, contratada pela prefeitura de Porto Alegre – já iniciavam a aplicação do veneno, Luciana e sua colega Sabrina ainda estavam dentro da unidade, arredando móveis na sala ao lado, sem serem avisadas, e sem que a elas fossem fornecidos EPIs necessários para esta proteção. Além disso, a segurança do trabalho do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), não acompanhou o procedimento, pois sequer foi avisada pela gestão do posto. Essa prática viola frontalmente todas as recomendações de segurança estabelecidas por órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e OPAS, que alertam para os riscos graves da exposição a inseticidas em ambientes fechados e recomendam um intervalo de 24h de intervalo até a entrada de pessoas sensíveis no ambiente. Luciana, que tinha alguns problemas de saúde, não teve suas comorbidades consideradas ao ser orientada a retornar ao posto apenas 1h após a aplicação do Fludora Fusion (inseticida fabricado pela Bayer), para varrer o posto.

E Luciana não foi a única trabalhadora a apresentar sintomas respiratórios sugestivos de intoxicação após a dedetização, outras trabalhadoras também apresentaram sintomas como falta de ar, tosse, dor de cabeça e irritação na garganta, que duraram dias ou semanas após o procedimento. Trabalhadoras vinculadas ao GHC tiveram acesso à saúde do trabalhador, mas as das empresas terceirizadas ficaram desassistidas nesse momento.

Ainda assim, a resposta dos governos envolvidos tem sido negar a realidade. Uma vez que tanto a Prefeitura, sob gestão do MDB, quanto a direção do Grupo Hospitalar Conceição, vinculada ao PT, se apressam em classificar a morte como “natural”, isentando-se de qualquer responsabilidade. Essa postura não apenas ignora os fatos, como também expressa um pacto de silêncio que protege governos e ataca trabalhadores. E para tentar silenciar os fatos, trabalhadores, associações e sindicatos que se mobilizam, sofrem assédio e ameaças de patrões e seus capangas.

É preciso dizer com todas as letras: A POLÍTICA DE TERCEIRIZAÇÃO TEM RESPONSABILIDADE DIRETA NESSE CENÁRIO.

São as trabalhadoras nas empresas terceirizadas, majoritariamente mulheres negras, nos setores mais precarizados como limpeza e serviços gerais que estão mais expostas aos riscos mais vulneráveis ao assédio moral e à negligência institucional.

A morte dessa trabalhadora não pode ser desvinculada dessa estrutura, terceirizar não é apenas uma escolha administrativa é uma decisão política que transfere riscos, retira direitos e empurra a classe trabalhadora, especialmente mulheres negras nos setores mais precarizados, para condições de maior vulnerabilidade. Terceirizar é precarizar, expor trabalhadores a ambientes inseguros, sem informação, sem proteção e sob constante pressão e assédio; e expor é, inevitavelmente, adoecer. Quando essa lógica se impõe dentro de serviços públicos, como nas unidades de saúde, o resultado disso é exploração e violência institucional e, como estamos denunciando, pode significar morte. Não é acaso, é projeto.

Quando uma mulher negra, trabalhadora da limpeza, morre após ser exposta a agentes químicos no trabalho, não estamos diante de um episódio isolado. Estamos diante da expressão concreta do racismo, da desigualdade de gênero, potencializados pelo capitalismo, e da exploração de classe operando dentro das instituições públicas.

A Intersindical segue exigindo que mais esse ataque contra a vida de mulher negra trabalhadora não fique impune.

Seguiremos denunciando, nos organizando e lutando!

Porque a vida da classe trabalhadora importa!