NOTA DA INTERSINDICAL-DF SOBRE A GREVE DOS TRABALHADORES DA CAESB

Vitória dos trabalhadores da CAESB: Na mais longa greve de sua história, os trabalhadores da CAESB conquistam redução de jornada para 6 horas mantém todos os direitos e avançam nas conquistas!!!

Por meio de uma dura greve de 28 dias, os trabalhadores da CAESB (Companhia de Saneamento do DF) saem vitoriosos de um enfrentamento com empresa e GDF, forçando a empresa a driblar a orientação de arrocho do governo de não conceder reajustes e obtém conquistas econômicas como reposição da inflação nos auxílios transporte, creche, educacional e condutor, aumento real no auxilio alimentação, reconhecimento de titulação de cursos técnicos e reenquadramento da tabela que garantiu aumento salarial para todos os trabalhadores.

Mas as vitórias da categoria também se expressam nas conquistas de melhorias de vida e trabalho como adiantamento do beneficio do INSS nos casos em que não há consenso entre o órgão e a empresa se o funcionário está apto ou não pra voltar ao trabalho e a mais relevante das cláusulas: a redução da jornada para 6 horas de trabalho sem redução de salário.
Assim, a categoria conseguiu avançar na conquista de demandas históricas, sem corte de ponto, sem reposição dos dias parados, com compromisso assinado de não retaliar nenhum trabalhador e principalmente, sem a retirada de nenhum direito!
Avanços sem redução de direitos em um contexto difícil.

A conjuntura no DF passa por mudanças decisivas desde o começo do ano, que em um momento esteve mais acelerada com a possibilidade de uma greve geral do serviço publico quando o governo decretou que todas as categorias dos trabalhadores ligados ao GDF teriam as suas demandas trabalhistas submetidas ao seu controle direto nas negociações, mesmo aquelas que historicamente não o faziam e as que, juridicamente, têm autonomia para negociar, como é o caso da Caesb, CEB e outras empresas públicas.

O decreto de arrocho foi baseado na alegação de que “está cumprindo a Lei de Responsabilidade Fiscal” e assim o governo vem impondo uma política de cortes de gastos via redução de salários, aumento da terceirização, reajuste zero e retirada de direitos dos trabalhadores no serviço público, o que nivela por baixo direitos e salários repercutindo diretamente também sobre o setor privado, sendo essa, portanto, uma política de governo para todos os trabalhadores do DF.

No mês de abril, essa política de arrocho petista no DF incidiu mais forte sobre vários movimentos dos trabalhadores. Foi tamanha truculência   julho 02que até a CUT fez atos de repúdio e ameaçou convocar uma greve geral do  funcionalismo público da cidade, com a base do Sinpro (os professores estavam em greve) e do SindSasc (assistência social), Sindsaúde, Sindser (autarquias e administrações direta e indireta) e outros.
A política do governo Agnelo também foi aprofundada por conta do cenário local de dificuldades externas – devido aos escândalos diários de corrupção envolvendo o governador e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Assim, o GDF vem usando as derrotas dos trabalhadores como forma de abafar os escândalos, demonstrando, ao empresariado da cidade, que é o setor mais competente pra governar porque controla os trabalhadores e lhes retira direitos. Nesse sentido, o GDF tem atuado contra os movimentos grevistas, com apoio da mídia, e se recusando a uma negociação séria com todas as categorias.

O grande inimigo é ex-aliado, breve analise Governo do PT.

O fato de o Partido dos Trabalhadores ter tido, no passado, uma trajetória política de atuação em defesa dos trabalhadores e, no presente, ser a representação manipuladora de muitas categorias permite que o seu governo, juntamente com os sindicatos de sua central sindical, a CUT, atuem com força política suficiente para se voltar contra os trabalhadores. Em um processo de mudança lenta dos rumos do partido, o PT passou a priorizar as eleições de governos e do parlamento ao invés da luta dos trabalhadores.

Para conseguir força política na sua opção eleitoral, esse partido provou (e ainda prova) para os empresários, em nome de uma governabilidade, que é capaz de controlar os movimentos dos trabalhadores e, como consequência, rebaixar salários e retirar direitos. Para isso, combina truculência e convencimento, derrota greves ou faz acordos escusos com diretorias pelegas para se manter no governo.
Como o projeto de poder do PT é baseado numa aliança política com setores das classes dominantes é fundamental, para manter a sua governabilidade, que ele atue em eixos centrais, tais como: manter os lucros do capital, pacificar os trabalhadores e garantir sua perpetuação no aparelho do Estado com alianças eleitorais cada vez mais escusas como a atual com o PMDB. O PT tem atuado habilmente na função de governo principalmente ao conter os trabalhadores de diferentes maneiras. Aqui em Brasília as últimas greves ilustram bem o leque diferenciado de atuação do governo para com as diferentes perspectivas políticas da categoria.

Com os professores, o Governo atuou decidido a garantir uma derrota exemplar por ser essa uma categoria de grande expressão política no DF. Primeiro, o governo não cumpriu o acordo anterior, o que levou um sindicato do campo da CUT a entrar em mobilização buscando o enfrentamento no inicio da greve, depois não negociou fazendo com que o movimento se estendesse em semanas, levando a categoria ao cansaço e desgaste público e para encerrar a greve, manteve a dureza de sua política, mas garantindo um beneficio para dar ao sindicato um ponto para divulgar como saída honrosa e concedeu a incorporação de uma gratificação, a TIDEN.

Com os metroviários o governo recolocou na mesa de negociação direitos que ele mesmo havia retirado na greve anterior (como a jornada reduzida para 6 horas dos pilotos) atuou de forma a dividir a categoria com medidas como essa e com a implementação do PES (Plano de empregos e Salários) e ameaçou com a retirada de vários direitos caso a categoria optasse pela continuidade do movimento. Vinda de uma greve difícil em que houve poucas conquistas comparadas a luta que realizou, os metroviários optaram por sair do movimento apenas com a não retirada de direitos, mas sem perspectivas de avanço nas reivindicações.

Com essas táticas o GDF tem conseguido fragmentar a unidade dos trabalhadores em greve e foi riscando, um a um, os sindicatos que estavam em luta e da possibilidade da greve geral e deixou somente os trabalhadores da CAESB em greve.

A prova de que mesmo sendo o momento de maior endurecimento do governo era também um bom momento para pressioná-lo contra o arrocho, é que diante de uma categoria fortemente mobilizada, cuja direção do sindicato mantém uma postura combativa e independente, o GDF se negou a enfrentar diretamente os caesbianos e passou somente a intervir nas negociações que a empresa fazia, mas sem assumir o processo.
Ao contrário, quando nos vários atos públicos que realizou a categoria começou a confrontar o governador a postura do Agnelo era de um visível incomodo e na tentativa de tentar se blindar e ignorar o movimento, os assessores é que tentavam contornar a situação e no impasse entre a pressão do GDF e dos trabalhadores a empresa negociou e atendeu pontos importantes da pauta, ainda que tentando disfarça-las para que o governo pudesse continuar com a imagem de que nada cede aos trabalhadores.

Por que com os trabalhadores da CAESB foi diferente?

É preciso que se tenha claro que essa conquista dos trabalhadores da CAESB vem de uma sequencia de vitórias alcançadas pela categoria, todas essas possibilitadas por suas lutas e pela atuação firme diretoria do sindicato que mantém independência da direção da empresa, do governo.
Os trabalhadores da CAESB têm atuado no sentido de serem os protagonistas de sua história e comprovam que não é magicamente apertando o botão da urna no período das eleições ou simplesmente delegando aos outros conseguirão melhorias de vida, demonstrando que só a luta dos trabalhadores lhes possibilita reais conquistas.

Ao fazer seus movimentos de luta, a categoria caesbiana não depende de articulações ou favores a parlamentares, nem conchavos com setores do governo. Por mais de uma vez já foi pronunciado por dirigentes sindicais da categoria que sempre estão dispostos a negociar, mas enquanto a categoria não está mobilizada não há avanços. Então, primeiro eles fazem e organizam a luta, depois de sentir a pressão, parlamentares e governo que tentem chamá-los pra conversar.

As táticas que passam necessariamente pelo envolvimento de parlamentares e articulações com o governo, usadas por alguns sindicatos podem até trazer avanços pontuais em alguns momentos, mas ao desarmar os trabalhadores para luta, fazem com que a categoria perca a força e relevância política, fazendo com que a aliança não seja mais prioritária pra Governo ou deputado que passam somente a garantir migalhas para a base eleitoral já conquistada.

A firmeza da direção do sindicato pode ser vista na forma que como resultado de anos na realização das greves a categoria foi construindo uma cultura de luta e mobilização. Dessa forma, mesmo nos locais em que a diretoria do sindicato não está presente, os trabalhadores (sendo eles delegados sindicais ou não) debatem suas ações, coordenam os piquetes, fazem enfrentamentos importantes com chefia e até com a polícia e dessa forma participam e conduzem todo o processo da greve.

Por fim, é preciso que se reafirme que os avanços importantes tem que ser reconhecidos e comemorados, mas sobretudo é preciso que se tenha clareza de que a luta por melhoria de vida e trabalho continua, que na relação capital-trabalho quem não avança, retroage. Portanto, é preciso que a categoria siga firme, fortalecendo sua atuação no cotidiano para que se possa continuar obtendo vitórias! Avançar nas conquistas, retroceder jamais!!!

INTERSINDICAL-DF, junho de 2012