Mobilizações de Junho: Tentam transfigurar a forma para não revelar o conteúdo, o pavio está aceso

 

O Capital com a devida operação do Estado no governo democrático e popular tenta ocultar o avanço das lutas no Brasil, dos últimos dois anos: aumento do número de greves reivindicando mais salários e melhores condições de trabalho, ampliação dos direitos, nas grandes multinacionais, obras do PAC, da Copa, nas usinas hidrelétricas, à servidores que devidamente prenderam dentro do banco, o Prefeito que reduziu seus salários em Juazeiro do Norte. O Capital e seu Estado tentam reduzir essas lutas em manifestações corporativistas e fragmentadas. E para as mobilizações dos últimos dias tentaram alçar o espaço virtual que agiliza as convocações: como o “grande organizador horizontal invisível”.

Fora do espaço do trabalho, a maioria que precisa dos serviços públicos, da saúde à educação vive a mesma situação de antes do governo democrático e popular: o acesso é cada vez menor e cada vez mais precário. Além disso, o pedaço onde quem é trabalhador mora é destruído para que as obras dos ‘grande eventos’ possam passar, indígenas são tratados como “um problema”, que impede o avanço da agroindústria no Brasil.

Por mais que nossa classe tenha se endividado para comprar um carro, a maioria de nós precisa do transporte coletivo, principalmente para trabalhar e nas semanas de junho a mobilização contra o aumento da tarifa colocou estudantes, mas também milhares de trabalhadores em movimento, por isso e por tantos outros problemas que vivem os trabalhadores por todo país.

 

Centavos a mais é muito para quem recebe por sua força de trabalho um salário que é necessário fazer escolhas, entre andar mais a pé, ou diminuir a alimentação.

Trabalhadores que a partir de muita propaganda ideológica do Capital e seu Estado na expressão do governo democrático e popular do PT, se movimentam como se fossem apenas indivíduos, descolados de sua classe. Exigindo a cidadania que nada mais é do que o espaço criado pela e para a burguesia, como se fosse um espaço de todos quando na verdade é mais um instrumento para atender os exclusivos interesses do Capital.

A dura jornada, as condições de trabalho e de vida pioram. A violência de Estado nas periferias (que em São Paulo é a principal política pública da Opus Dei de Geraldo Alckmin, que também se expressa na defesa dos interesses da especulação imobiliária principalmente na invasão e destruição do Pinheirinho em São José dos Campos/SP), a ausência do básico nos serviços públicos se extravasou numa boa e devida, mesmo que ainda não consciente raiva de classe: o aparelho repressor do Estado agrediu quem estava dentro e quem estava fora apoiando as mobilizações.

As manifestações se ampliaram e a repressão também: uma trabalhadora, passa mal ao inalar gás lacrimogêneo e morre vitima de infarto, um jovem de 18 anos morre atropelado por um motorista de uma Land Rover que avança contra a manifestação, mais duas mulheres morrem vitimas de atropelamento durante as manifestações. Em Minas pessoas que tentam se proteger da repressão policial caem do viaduto e se ferem gravemente, no Rio a Policia novamente em nome do combate ao tráfico invadem as comunidades e matam.

 

Nada melhor para a sociedade do Capital que se acredite que ninguém está entendendo nada. Do que está acontecendo

As mobilizações que se iniciaram pelo Movimento Passe Livre (MPL), movimento que se organiza há 08 anos, principalmente por estudantes, em várias cidades do país e que desde o inicio não recusou e contou com o apoio de outras organizações, cresceu em solidariedade e em participação ativa, principalmente a partir da violência de Estado praticada novamente no dia 13 de junho na cidade de São Paulo.

Ao ver que o pavio aceso, já não podia ser escondido, o Capital colocou sua pequena burguesia para trabalhar, principalmente nos meios de comunicação: hostilizar qualquer identidade organizada de classe, acompanhada de um nacionalismo ainda restrito ao hino e a bandeira, mas o principal: tentar impor que são indivíduos que se auto organizam negando qualquer organização. Junto a isso a ação combinada do Estado na expressão do governo federal, com Dilma dizendo que é preciso ouvir a voz das ruas e correndo para se reunir com Lula e Haddad para revogar o aumento da tarifa do ônibus e Alckmin para não ficar só, com o ônus da repressão, também revoga o aumento da tarifa dos trens. Tudo isso na tentativa de conter, o pote que transbordou.

Acompanhado a isso muitos “estudiosos” das expressões e relações humanas registram suas dificuldades ou suas conclusões para entender o que acontece. Organizações e partidos que se auto proclamam a direção necessária para a classe (como PSTU, PSOL) tentam esconder que estão atônitos entre a hostilização contra si orquestrada não pelos anarquistas como teimam em destacar, mas principalmente pela burguesia e dificuldade em saber como participam com o objetivo muito mais oportunista do que estratégico nas manifestações Tudo isso expresso em suas análises, e ajuntamentos de última hora para suas diluídas convocatórias com aqueles que já mostraram que não estão com os trabalhadores como as centrais sindicais pelegas.

O Partido dos Trabalhadores e seus auxiliares no movimento (CUT, CTB, Força Sindical entre outras centrais, MST, Marcha Mundial de Mulheres, Consulta Popular, PCdoB entre outros) logo após o anuncio da suspensão dos reajustes nas tarifas de ônibus tentam entrar em cena nas manifestações. Se utilizam da história que renegaram para serem aceitos pela burguesia, tentando disputar o movimento.

Parte expressiva dos partidos do campo de esquerda que fizeram a opção preferencial pela institucionalidade, se inscrevem na pauta prioritária da pequena burguesia, que tenta reduzir, sem sucesso, as demandas que colocam milhões nas ruas ao problema da corrupção e assim auxiliam mesmo que não deliberadamente a tentativa de ocultar a principal luta a se fazer: contra a exploração capitalista legitimada pelo Estado.

 

Propaganda ideológica, repressão oficial e tentativa de cooptação travestida de recuo. Tudo vale para tentar conter a explosão

Enquanto em várias cidades do país a polícia seguiu reprimindo e criminalizando, em São Paulo no inicio da semana de 17 de junho se fingiu desarmada e ausente. Para depois voltar guardiã dos meios privados pichados, depredados e saqueados, a mesma ação se seguiu em outras cidades brasileiras. Fruto das mobilizações nas ruas, os governos que antes anunciaram nenhuma possibilidade para que isso acontecesse, revogaram o aumento das tarifas em várias capitais e cidades do interior pelo país afora. Os meios (de comunicação) por onde os representantes do Capital se manifestam “clandestinamente”, valorizam tudo aquilo presente nas manifestações que não trará consequências graves ao funcionamento da sociedade, ou seja: combate a corrupção, paz de cemitério, tudo isso pode e deve ser estimulado.

No final da semana do 17 de Junho, a burguesia acelerou as ações dentro das manifestações. A principal representação do Capital no país, a FIESP (Federação das Indústrias no Estado de São Paulo), veste seu prédio na Avenida Paulista com a bandeira do Brasil, na forma a expressão do conteúdo: tentar transformar as mobilizações na “mobilização de todos” e continuar a ocultar a classe no indivíduo, impor a cidadania como o “bem maior e de todos a ser defendido”. Junto a isso, na mesma avenida, através de grupos com ações claramente fascistas ataque a toda e qualquer forma de ação e instrumentos organizados da classe trabalhadora, ação que se expressou em outros lugares.

O governo democrático e popular se pronuncia legitimando a pauta da burguesia: ataque as ações mais radicais presentes nas manifestações, chama para o Palácio do Planalto diversas organizações como o Movimento Passe Livre, o Movimento dos Trabalhadores sem teto, as Centrais Sindicais. E na forma o governo diz que mais do que “ouvir” quer dialogar.

Chama também os governadores para apresentar as ações emergenciais, mandando um claro recado que trabalha para socializar o ônus do desgaste dos últimos dias. E para coroar um Plebiscito onde toda a sociedade é chamada a opinar sobre uma reforma política.

No conteúdo de todas as medidas a tentativa da construção do pacto para tentar frear e retardar a boa e necessária luta de classes.

 

Quem se distanciou e quem conciliou com o Capital contra a classe trabalhadora tenta se colocar como protagonista das lutas: CUT, UGT, CTB, Força Sindical, Conlutas entre outras organizações se reuniram e definiram um Dia nacional de paralisação. Em que pese que a pauta reúna bandeiras já existentes e comuns da classe trabalhadora, as centrais sindicais que já capitularam a parceria com os patrões e os governos têm como objetivo se cacifar ao chamado ao pacto com o governo. Na outra ponta o oportunismo de se impor como direção à esquerda da classe, na expressão da Conlutas e outras organizações.

 

Nossa tarefa é sem arredar um passo de nossa estratégia, contribuir para que a classe trabalhadora se enxergue e assim potencialize a luta. Avançando na luta de classes, mantendo firmes nossa bandeira vermelha e nossa organização.

Participamos das mobilizações sem a pretensão oportunista de dirigir esse processo de luta, sem arredar um passo do nosso enfrentamento nos locais de produção e circulação do Capital, estamos nas ruas e avenidas, para contribuir que o pavio aceso siga seu trilho e principalmente para contribuir que os trabalhadores, reduzidos a indivíduos se encontrem como classe trabalhadora.

Estaremos no dia 11 de julho nos locais onde estamos organizados com paralisações, assembleias e panfletagens com material próprio reafirmando nossa política: é com a classe nos locais de trabalho, moradia e estudo potencializando a luta contra os ataques do Capital, seus governos e seus aliados presentes no movimento.

E o momento desse encontro necessariamente revela que para enfrentar os ataques do Capital e seu Estado é preciso negar o pacto que tem como objetivo frear a luta e iniciar uma nova rodada de ataques ao conjunto dos trabalhadores.

Seguir no trilho de nosso processo histórico como classe é também seguir construindo, defendendo e ampliando nossos Instrumentos de Organização e Luta, potencializar cada mobilização que se enfrenta com ações do Estado, revelando que ele atende as necessidades do Capital.

E assim com a classe na experiência das lutas do seu cotidiano imediato, avançar para a maior e necessária luta por uma sociedade socialista.